O Papa Francisco estaria trazendo o relativismo à Igreja?

As últimas declarações do Papa Francisco136 foram qualificadas de “modernistas” e recebidas com “desorientação” por alguns setores conservadores, mas esta é uma questão de estilo que não tem por que gerar dúvidas sobre a infalibilidade do Papa.

Algumas pessoas ou grupos católicos manifestaram sua desorientação sobre alguns enfoques que o Papa apresenta sobre aspectos do magistério da Igreja. Há quem pense que o Papa vai “minar” a situação da Igreja, “em uma época em que ela já se encontra marginalizada pela cultura, cada vez mais laica”. Outros acham que o Papa é uma pessoa notável, mas talvez imprudente.

O superior da Fraternidade de São Pio X, Dom Bernard Fellay, comentou que Francisco “é um verdadeiro modernista”; disse que “a situação da Igreja é um verdadeiro desastre, e o Papa atual está piorando dez mil vezes esta situação”.

“Se o atual Papa continuar como começou – afirmou Fellay –, ele dividirá a Igreja. Está explodindo tudo.” O líder lefebvrista também disse que “Deus é muito maior que nós e muito maior que o trabalho destes ministros imperfeitos”, e acrescentou que é preciso segui-los “quando dizem a verdade”, não quando “oferecem lixo”.

Vale a pena refletir sobre este fenômeno provocado pelo estilo direto e próximo que o Papa Francisco está expressando em seu pontificado.

Cada papa tem o seu estilo, e o de Francisco está demonstrando que toca as pessoas e as interpela. É evidente que os papas são diferentes, assim como as formas de viver a fé. A Igreja teve recentemente um Papa evangelizador, João Paulo II; outro teólogo, que foi Bento XVI; e agora tem um Papa missionário, com um forte conteúdo profético. E os profetas costumam ser incômodos.

Em uma coluna de opinião do “El País”, Anastasio Gil, diretor das Pontifícias Obras Missionárias (POM) na Espanha, observou um fato revelador: “A chave do Papa Francisco radica no método missionário do primeiro anúncio. Daí que, como podemos testemunhar na sede das POM, o entusiasmo com o qual os missionários estão vivendo este momento da Igreja não tem a ver com o Papa, mas com eles mesmos”.

Segundo o representante das POM, o Papa Francisco “está conferindo ao papado a forma missionária de entender e de praticar o Evangelho na história”.

Ele explica: “O conceito de missão do Bispo de Roma procede da sua experiência em situações de extremos antropológicos, da sua compreensão da relação entre o Evangelho e os pobres, da sua proposta radical de um cristianismo que olha para cada homem e para cada mulher sem preconceitos, ao mesmo tempo em que fica em silêncio para ouvir as batidas do seu coração”.

“É um silêncio que não pergunta, só escuta e acompanha, já que a distância entre cada coração e o Evangelho, entre cada coração e a possibilidade de encontro com Jesus de Nazaré já não é medida com conceitos e com palavras, mas com a experiência”, completa.

Anastasio Gil comenta que “nós, que fazemos missões, entendemos bem o Papa“, já que o espírito missionário não coloca a norma acima de tudo: atende-se as pessoas, sejam elas quem forem, sem julgá-las, sem questioná-las. Só depois desse processo é que se extrai um resultado.

Os “progressistas” sempre discordaram dos papas que não lhes agradavam, por considerá-los conservadores demais. Esta atitude significou, em geral, romper a comunhão com o Papa e com a Igreja.

Agora este fenômeno ocorre no outro extremo: as pessoas ou grupos que se declaram partidários da ortodoxia católica podem cair em uma contradição muito grande se romperem sua comunhão com o Papa.

O cristão não escolhe o Papa porque gosta mais ou menos do seu estilo; sua figura vai muito além disso, apesar dos erros que, como ser humano, ele possa cometer. A infalibilidade é dogma.

Este fenômeno – mínimo, por enquanto – não deixa de revelar a evidência de que a cultura da desvinculação e a mentalidade relativista, que situam a subjetividade acima de tudo, são contaminações que afetam tudo e todos, também a Igreja e os cristãos. A principal proteção contra este risco é ter uma consciência suficientemente sólida para não se afastar dos fundamentos.

Cabe recordar o precedente do Papa Leão XIII, tradicionalmente incompreendido pelos seus contemporâneos. Na Espanha, por exemplo, chegaram a rezar Missas pelas sua conversão. Mas ele finalmente entrou para a história como um grande e visionário Sucessor de Pedro, que deixou uma grande herança para o cristianismo.

As reservas com relação a Leão XIII tiveram a ver com sua encíclica “Rerum novarum“, primeira encíclica social da Igreja Católica, que não foi compreendida naquela época. Foi promulgada em 15 de maio de 1891 e versava sobre as condições da classe trabalhadora.

Nela, o Papa deixava claro o seu apoio ao direito trabalhista de formar uniões ou sindicatos, mas também reafirmava seu apoio ao direito à propriedade privada. Além disso, discutia sobre as relações entre o governo, as empresas, os trabalhadores e a Igreja, propondo uma organização socioeconômica que mais tarde seria chamada de corporativismo.

Foi toda uma mudança de perspectiva, em pleno desenvolvimento da Revolução Industrial. Uma mudança que fez de Leão XVIII um papa incompreendido.

Cabe esperar que Francisco possa ser profeta (e Papa) em sua terra.

Fonte: aleteia.org

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