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O capitalismo mudou minha família.

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A igreja conserva até hoje as mesmas características da época de meus avós.

Vamos deixar claro uma coisa desde o inicio deste artigo, não estou puxando saco do capitalismo, e nem estou sendo financiado pelos “Burgueses Opressores”, apenas quero contar como o capitalismo foi importante para o crescimento financeiro da minha família, e como isso foi crucial para que hoje eu esteja me graduando em filosofia e ter estudado o que eu já estudei. Tudo começou em maio de 1951 quando o senhor Otávio Claudiano perpetuou o noivado com a respeitosa Emília Pereira da Silva se casando na pequena igreja do bairro de Cantagalo em São Bento de Sapucaí, como era de costume em uma família católica, meus avós citados acima após um ano, já com um filho recém nascido, meu tio José Cirineu, deram partida a uma empreitada de filhos, que só parou quando se completaram quatorze, interessante perceber que para meus avós isto era sinal de bênçãos e não de desgraça como vemos hoje se espalhar em meio à juventude. 

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Meu Avô ainda novo, com 18 anos

Mas enfim, moradores de roça que eram, meu avô tinha seus cabritos e seus porcos, os quais serviam para alimentar seus filhos e para agradar os vizinhos de vez em quando, e ao mesmo tempo meus tios trabalhavam capinando e plantando para donos de terras, porém com a inteligência de um doutor, meu avô que não tinha completado nem a 3ª série e mal sabia ler e escrever, percebeu que ali no campo, seus filhos não teriam chances de estudar, já que professores naquele pequeno bairro eram muito raros, quando queriam estudar tinham que se deslocar para cidade de Taubaté, mas a deslocação era muito difícil e custoso para uma família pobre de camponeses, então meu avô juntou as malas e com sua mulher e seus 7 filhos, partiu para a cidade grande, São José dos Campos, para que seus filhos tivessem educação de verdade e chances de um dia se tornarem pessoas com profissões estabelecidas; porém não foi tudo como um conto de fadas, chegando na cidade com 7 filhos na caçamba do caminhão, sem dinheiro, sem lugar para ficar, digamos que foi uma aventura de adolescentes, até que se estabeleceram em uma casinha alugada de 2 cômodos para cuidar de 7 filhos, mas o objetivo que aquele homem estava traçado e como em toda sua vida não desistiria por conta de dificuldades, no mesmo dia seus filhos já estavam todos matriculados e prontos para irem à escola. Porém nem tudo é um mar de rosas como eu já disse, meu avô trabalhando na fundição de uma empresa, teve problemas com toda a falta de segurança que rodeava aquele lugar de trabalho, as centelhas de ferro que se dispersavam no ar, entravam nos olhos dele de tal forma que os inchava a ponto de não enxergar mais nada; o salário baixo e 7 filhos para alimentar e uma vida nada digna em 2 cômodos o fez repensar seus planos e cogitar se não era melhor voltar para sua terrinha no interior de São Paulo, afinal lá não lhe faltava moradia e nem comida, e assim ele o fez, de novo voltou com seus 7 filhos e sua mulher para 18roça, para ele aquilo era sinal do seu fracasso, ele não conseguiria dar um futuro decente aos seus próprios filhos e nem a sua esposa, mas logo recuperou o ânimo e sem perder a fé, decidiu tentar novamente e partiu com eles de novo para São José dos Campos; mas desta vez foi um pouco diferente, morando em uma casa com um cômodo a mais, e com 11 dias de chegada seu amigo que já estava instalado na cidade levou meu avô até a GM (General Motors) e conseguiu um teste para ele, enfim aceito começou a trabalhar como equipe de manutenção, uma espécie de “faz tudo”, depois de 5 anos o promoveram para área de montagem de motores e depois de mais 3 anos virou encarregado de área e com um salario já bom, resolveu sair do aluguel e dar uma moradia digna para senhora Emilia e suas crias, como o projeto do governo através do BNH (Banco Nacional da Habitação) uma espécie de CDHU, meu avô comprou uma casa grande na qual moramos até hoje, com mais de 5 cômodos uma sala enorme, garagem, e espaço para o jardim da minha avó. Meus tios hoje todos estão com a vida “feita”, todos dignos e respeitosos, como meu avô guardaram em seu interior a garra e a força daquele senhor que acreditou, e que não ligou de trabalhar as vezes 18 horas por dia, deixando sua mulher lavar roupa para quase 10 famílias para colocar o pão na mesa, todos estudados, nenhum se desvirtuou, nenhum deu problema com drogas, pois o exemplo que tiveram em casa foi de um homem guerreiro, o tipo de homem que não se vê facilmente. Dizia meu avô que nunca foi de demonstrar sentimentos, mas no casamento da minha mãe chorava feito uma criança, nunca disse eu te amo para meus tios, mas a cada levantar 4:30 da manhã fazia uma declaração nova de amor a sua família, enfim aposentou em 1992, e foi curtir seu neto lindo, o qual ele criou, eu, me ensinou a ser homem com apenas 5 anos quando me acordava a 6 da manhã para varrer a calçada junto com ele, me deu minhas botinhas para ajudá-lo a capinar a sua casa de férias na sua cidade natal, o

07 primeiro presente que ele me deu foi um carrinho de mão feito de madeira, o qual calejava minha mão de levar terra para lá e para cá sem motivo algum, só porque queria ser como ele, aquele meu herói que me levava todos os dias escondido da minha mãe para tomar sorvete ( ela não deixava), aos meus 9 anos Deus o chamou, abriu um rombo em meu peito, o homem da minha vida, meu pai, deixou 22 netos, 1 bisneto, 10 filhos (isso mesmo depois de se instalarem aqui meu avô teve mais 3 filhos, ao total tiveram 14 filhos dos quais 4 morreram), uma viúva e toneladas incontáveis de saudades, naquela manhã chuvosa de 30 de novembro o maior herói que pisou na terra, na minha opinião depois de nosso senhor Jesus Cristo, meu avô, nos deixou, herói esse que a Marvel nunca poderá fazer igual, pessoas que Deus coloca na terra no silêncio de uma roça, para que as pessoas que ele toque nunca mais sejam as mesmas.

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Filhos de Dona Emilia e Seu Otávio. (Com exceção de um que não esta na foto)

Hoje minha família tem uma vida boa, suas casas próprias, suas famílias, hoje eu posso ter a chance de fazer uma faculdade, minha família só esta aqui, só foi possível evoluir por conta de dois fatores: o primeiro a garra do meu velho avô e por conta do “capitalismo opressor” americano da GM, eu me indago até que ponto ela é opressora, será mesmo que o capitalismo é opressor ou as pessoas são preguiçosas, não estou dizendo que o capitalismo não tem seu lado desumano e até realmente opressor, mas estou dizendo que a vida é ruim para quem é mole com a vida, a vida nunca aceitou vagabundos, isso não só no capitalismo, mas até na época das cavernas passando pelo feudalismo e até hoje, quando eu vejo gente pedindo igualdade, vejo passeatas sem sentindo, eu me pergunto aonde foi que eles enterraram seus sonhos? Aonde estão seus princípios e prioridades? Meu avô necessitava alimentar 7 bocas famintas, não havia tempo para ele protestar contra o sistema, ele precisava dar uma vida digna a sua prole, não havia tempo de vagabundear, se possível fosse, perguntaria-lhe se ligava de acordar 4:30 da manhã e chegar 20:30 da noite em casa, ele diria não, porque a alegria dele estava em chegar em casa com o saco de pão na mão e uns 3 litros de leite e ver seus filhos alimentados, estava em poder fazer um agrado a esposa, em dar-lhe uma roupa nova, ou um véu lindo para usar na missa. O capitalismo o 12presenteou com uma vida tranquila de 10 anos de aposentado, construiu seu oásis de paz na sua terra natal, pôde ver seus filhos se tornarem homens e mulheres de garra e convicção. A diferença do Capitalismo para o Comunismo é que no capitalismo se você quer ser alguém, você não tem tempo para vagabundear, não que não devamos lutar por uma carga horária de trabalho justa, e por salários dignos, não que devamos ser escravos, mas além disso temos que suar, temos que lutar e acreditar nos sonhos, é preciso chorar sozinho e escondido para seus filhos e sua mulher não vejam, é necessário vender o relógio para trazer comida para dentro de casa, é necessário sofrer sim, é necessário ter fé pois um dia Deus recompensa, um dia seu trabalho é reconhecido. O Capitalismo, não em suma (tirando exceções ruins de ladrões corruptos), não fabrica vagabundo, a igualdade comunista nem sempre é igualdade, no capitalismo se trabalha o merecimento, de novo repito, não estou dizendo em um contexto geral, pois sempre há exceções. Porém meu avô, se revermos a sua história no início, também o chamaríamos de oprimido, mas hoje ele através de suor e lágrimas, através de sol a sol de trabalho, deu a nós uma vida.

“Mas por que você quer tanto isso?” marinheiro responde – “Porque um dia me disseram que eu não conseguiria” (Filme – Homens de Honra)

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Bodas de Ouro.

Em memória do meu avô Otavio Claudiano Alves, e da minha avó que me criou e cria ainda, Emilia Pereira da Silva.

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Autor: Pedro Henrique

Revisora: Brenda Lorene

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